Guto Graça Mello, hábil mediador entre os interesses artísticos e comerciais, exerceu a diplomacia ao produzir discos e trilhas que marcaram época

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Guto Graça Mello (1948 – 2026) deixa obra extensa e excelente
Renato Velasco / Memória Globo
♫ OBITUÁRIO
♬ Além do refinado gosto musical e do faro apurado para o sucesso, a diplomacia talvez tenha sido uma das maiores qualidades de Augusto César Graça Mello (29 de abril de 1948 – 5 de maio de 2026) no ofício de produtor musical.
A habilidade para se equilibrar entre a vontade artística dos cantores e as exigências comerciais de diretores de gravadoras sempre pareceu natural em Guto Graça Mello, como era conhecido no meio fonográfico o compositor e produtor que morreu hoje, aos 78 anos, vítima de parada cardiorrespiratória em hospital da cidade natal do Rio de Janeiro (RJ).
Basta lembrar a forma como Guto lidou com as exigências de Marcos Maynard, o executivo linha dura que assumiu a gravadora PolyGram em 1993, ao longo da gravação dos álbuns das cantoras Maria Bethânia e Cássia Eller (1962 – 2001). Por sugestão de Maynard, Bethânia gravou em 1993 o álbum “As canções que você para mim”, com músicas do repertório de Roberto Carlos, e voltou às paradas com a força dos anos 1970. Guto produziu o álbum conciliando vontades distintas.
Já Cássia teve que suavizar o tom e a voz no terceiro álbum de estúdio, gravado em 1994 para tornar a cantora mais pop e mais radiofônica. Maynard impôs músicas que a cantora não queria gravar, como “Partners” (Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Paulo Pagni, 1988). Hábil na conciliação entre as ambições musicais da cantora e a expectativa comercial da gravadora, Guto Graça Mello produziu um disco bem-sucedido que gerou os sucessos “E.C.T.” (Nando Reis, Marisa Monte e Carlinhos Brown, 1994) e “Malandragem” (Roberto Frejat e Cazuza, 1994).
Orquestrar a produção musical desses dois álbuns reabilitou o nome de Guto na indústria fonográfica. É que, na segunda metade da década de 1980, o produtor se envolveu com drogas e deixou o mercado na mão ao se autoexilar nos Estados Unidos.
Pareceu naquele momento que chegava ao fim uma brilhante carreira de produtor iniciada na primeira metade dos anos 1970 na TV, precisamente na TV Globo, emissora na qual Guto exerceu papel decisivo na produção de trilhas sonoras de novelas a partir de 1973.
A trilha original da novela “Gabriela”, exibida em 1975, resultou marcante e se tornou antológica por apresentar músicas inteiramente inéditas de compositores como Dorival Caymmi (1914 – 2008), Alceu Valença, Sueli Costa (1943 – 1983) e Walter Queiroz. De 1975 a 1985, Guto marcou época como produtor de trilhas antológicas e também como um dos diretores da Som Livre.
Nessa gravadora, então integrada à TV Globo, Guto Graça Mello incentivou Rita Lee (1947 – 2023) ao dar a guinada pop na carreira, a partir de 1979, em parceria com o marido Roberto de Carvalho. Deu tão certo que Rita liderou as paradas do Brasil de 1979 a 1982.
Além de excelente, o trabalho de Guto Graça Mello como produtor musical e/ou diretor musical é extenso, abarcando festivais, especiais infantis como o celebrado “Plunct plact zuuum” (1983), trilhas sonoras para filmes e para musicais de teatro. Sem falar em Xuxa. Em 1986, Graça Mello produziu o primeiro álbum de Xuxa e, sob as ordens do todo poderoso da Som Livre, o diretor João Araújo (1935 – 2013) , transformou a apresentadora em cantora, fazendo de Xuxa uma das maiores vendedoras de discos da história do mercado fonográfico brasileiro.
Mediador entre interesses artísticos e comerciais, Guto Graça Mello também foi compositor, tendo sido gravado por cantoras como Fafá de Belém (“Gosto do prazer” em 1983), Fernanda Abreu (“Babilônia rock”, sucesso do álbum “Da lata” em 1995), Maria Bethânia (“Vinho”, parceria de Guto com Naila Skorpio, em 1983), Nana Caymmi (1941 – 2025) – intérprete de “A cara do espelho” em álbum 1977 – e Nara Leão (1942 – 1989), que em 1967 gravou “Cabra macho”, parceria de Guto com Mariozinho Rocha, com quem o produtor também compôs “Marrom glacê”, tema-título da novela de 1979.
Autor do tema de abertura do programa “Fantástico”, estreado em 1973, Guto Graça Mello deixa contribuição imensurável à música brasileira com trajetória iniciada nos anos 1960 como integrante do Grupo Manifesto e desenvolvida nos bastidores como produtor musical de atuação conciliadora.
Em essência, Guto Graça Mello foi grande meio-campo que preparou a jogada certa para que cantores fizessem golaços em forma de discos.

Fonte: G1 Entretenimento