Encontro de Bolsonaro com Orbán ocorre em momento eleitoral difícil para premiê húngaro de extrema direita

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Diante de frente unida de seis partidos da oposição, pela primeira vez em duas décadas, ultradireitista corre o risco de perder cargo. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, durante entrevista coletiva em Belgrado, na Sérvia, em 2020
Andrej Isakovic/AFP
A próxima parada do presidente Jair Bolsonaro é Budapeste para encontrar um aliado ideológico e expoente da extrema direita europeia – o controverso premiê da Hungria, Viktor Orbán. A seis semanas da eleição mais disputada no país desde 2010, quando o ultradireitista retornou ao poder, ele enfrenta agora uma coalizão de partidos que se juntaram com um único objetivo: tirá-lo do cargo, após quatro mandatos consecutivos sustentados pelo Fidesz, que hoje governa absoluto com 133 das 199 cadeiras do Parlamento.
O lema “qualquer um menos Orbán” à frente do governo húngaro reúne seis legendas de espectros políticos aparentemente inconciliáveis, como a de extrema direita Jobbik e a progressiva Coalizão Democrática. A frente ampla “Unidos pela Hungria” aposta no candidato conservador Péter Márki-Zay, fervoroso católico, pai de sete filhos e prefeito de uma pequena cidade no sudeste do país.
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A coalizão opositora está apenas dois pontos atrás do Fidesz, de Orbán, segundo pesquisa recente do Republikon Institute. Pela primeira vez em duas décadas um opositor tem, no dia 3 de abril, chances reais de derrubar o primeiro-ministro e pôr fim ao sistema político que ele define como democracia iliberal.
Veja abaixo um vídeo de 2021 que mostra que Orban foi criticado durante a Parada do Orgulho LGBTQIA+ no país.
Húngaros participam da Parada do Orgulho LGBTQIA+ e protestam contra ‘lei antigay’ de Viktor Orbán
O caminho para a reeleição de Orbán é complexo, dificultado por inflação alta e cortes nos fundos da União Europeia. É nesse contexto, de disputa eleitoral acirrada e o desgaste político do premiê, que Bolsonaro desembarca na capital húngara.
Em quatro mandatos, boa parte com uma supermaioria do Fidesz, ele assegurou controle sobre a mídia, o Judiciário e as instituições da sociedade civil consideradas progressistas. Promoveu reformas judiciais que cercearam a independência dos tribunais húngaros. Perseguiu ONGs e tentou enquadrá-las numa suposta lei de transparência, revogada como discriminatória, por determinação do Tribunal de Justiça Europeu.
O premiê moldou a popularidade com políticas para fortalecer as famílias e a comunidade cristã, às custas de um discurso populista e xenófobo. Focou em políticas anti-imigração que tinham como alvo pessoas de origem muçulmana.
Na crise migratória europeia de 2014, construiu uma cerca de arame farpado ao longo da fronteira com a Sérvia para conter o fluxo de refugiados a caminho da Alemanha e orquestrou uma campanha com países da Europa Oriental para rejeitar uma política comum de cotas para receber imigrantes.
Eurocético de carteirinha, está em permanente rota de colisão com a Comissão Europeia, mas, por outro lado, o modelo autocrático serve também de inspiração para outros governos autoritários da UE, como Polônia e Eslovênia.
Ao ser reeleito, no ano passado, líder do Fidesz, Orbán assegurou que a Hungria não deixará a União Europeia, mas resistirá às tentativas de corroer a sua soberania: “Nós não vamos desistir do direito de defender nossas fronteiras, de parar os migrantes. Nós insistimos que o casamento na Hungria é entre um homem e uma mulher, um pai é um homem e uma mãe é uma mulher.”
Decisões arbitrárias de seu governo, que contrariam os padrões democráticos do bloco, levaram a um congelamento de fundos para o financiamento da recuperação da pandemia. Sob a liderança de Orbán, a Hungria aprovou uma lei restringindo o acesso de menores de 18 anos a qualquer conteúdo referente a identidades LGBTQ+, classificada de violação dos direitos humanos pelo bloco europeu.
Durante a pandemia, obteve poderes para governar por decreto e reforçar seu poder sobre a mídia. Seu partido respaldou uma legislação que criminaliza notícias consideradas prejudiciais ao combate ao novo coronavírus, com multas e sentenças de até cinco anos de prisão.
Como resumiu a socióloga Kim Lane Scheppele, especialista em política húngara e direito constitucional, à revista “New Yorker”, Orbán é o ditador definitivo do século XXI, pois exerce a coerção de seus opositores por meios econômicos, em vez da repressão física que caracterizou os regimes opressores do século passado.
São razões que podem fundamentar o fato de o premiê húngaro ser tão incensado por representantes da extrema direita da Europa e dos EUA e – por que não? – pelo presidente Jair Bolsonaro.
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Fonte: G1 Mundo