Fundado há 78 anos, sede do ‘El Nacional’ é confiscada em decisão judicial classificada pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) como a consumação de um roubo. O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, fala da sacada do Palácio Miraflores, na capital Caracas, ao lado de sua mulher, Cilia Flores, e de Diosdado Cabello, nº 2 do regime, em 2019
Luis Robayo/AFP
Em uma decisão judicial classificada pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) como a consumação de um roubo, a sede e o terreno do jornal venezuelano “El Nacional”, em Caracas, foram entregues ao todo-poderoso Diosdado Cabello, número 2 do regime de Nicolás Maduro.
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Aprovado por uma juíza alinhada ao chavismo, o confisco de bens de um dos últimos remanescentes do jornalismo independente da Venezuela foi concedido como forma de indenização de US$ 13,2 milhões por danos morais.
A origem do processo data de 2015, quando “El Nacional” reproduziu um artigo publicado pelo “ABC”, da Espanha, informando que Cabello, então presidente da Assembleia Nacional, estava sendo investigado em Nova York por ligações com o tráfico de drogas. Além do “El Nacional”, o dirigente chavista iniciou processos contra os meios “Tal Cual” e “La Patilla”, por difamação e insultos.
O valor da ação, de US$ 12,5 mil em 2018, teve um salto astronômico para US$ 13,2 milhões em 2021, atualizado pelo Tribunal Supremo de Justiça.
Em janeiro, a juíza Lisbeth del Carmen Amoroso Hidrobo, que é irmã do controlador-geral da Venezuela, Elvis Amoroso Hidrobo, concedeu a Cabello a propriedade do jornal, após um suposto leilão público. A sede, no leste de Caracas, foi cercada de militares.
“Ninguém viu onde o leilão foi realizado. Estava presente apenas o advogado de Cabello, que recebeu o prédio”, afirmou Miguel Henrique Otero, dono do “El Nacional”, ao Grupo de Diários América.
Foto da agência de notícias norte-coreana KCNA mostra encontro entre Diosdado Cabello, braço direito de Nicolás Maduro na Venezuela, e um integrante do regime de Kim Jong-un, a Coreia do Norte
KCNA via Reuters
Fundado há 78 anos, o jornal encerrou sua operação impressa em 2018, após as restrições impostas pelo regime para obter papel importado e outros produtos. Desde então, sua publicação é apenas digital, sem redação, funcionando com 50 jornalistas abnegados, que trabalham remotamente de casa. Perseguido pelo regime, Otero se exilou na Espanha e não pode voltar ao país.
De todas as arbitrariedades utilizadas pelo regime para perseguir meios de comunicação e calar profissionais, o confisco do “El Nacional” equivale à sua forma mais criativa, conforme considerou o presidente da SIP, Jorge Canahuati. Desde 2014, o chavismo já fechou 84 órgãos de comunicação, valendo-se de diversos artifícios, para atingir um objetivo – ser retratado apenas pela imprensa conivente.
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Fonte: G1 Mundo


