Álbum que fez Maria Bethânia alçar voo nas rádios, ‘Pássaro proibido’ faz 50 anos com a altivez e a imponência de 1976

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Maria Bethânia se tornou uma cantora mais popular a partir da gravação de ‘Olhos nos olhos’, canção de Chico Buarque lançada no álbum ‘Pássaro proibido’
Marta Viana / Reprodução da capa do álbum ‘Pássaro proibido’
♫ MEMÓRIA – DISCOS DE 1976
♬ Álbum decisivo na discografia de Maria Bethânia, “Pássaro proibido” chega aos 50 anos com a altivez a imponência intactas.
Lançado em 1976, com produção musical orquestrada por Caetano Veloso com o guitarrista e arranjador baiano Perinho Albuquerque (1946 – 2025), “Pássaro proibido” foi disco determinante na trajetória de Bethânia porque fez a cantora alçar voo nas rádios AM – as emissoras de frequência mais popular – e ampliar o séquito de súditos por conta do estouro da canção “Olhos nos olhos” (1976), presente de Chico Buarque para a intérprete que, desde o início daqueles anos 1970, vinha amplificando músicas do artista, caso de “Rosa dos ventos”, composição de 1970 que deu nome ao emblemático show estreado por Bethânia em 1971.
Analisado em perspectiva, 50 anos após a edição original do álbum pela gravadora Philips em LP de capa dupla, “Pássaro proibido” é disco que deu o pontapé inicial na construção da imagem de Maria Bethânia como grande estrela da MPB.
Projetada nacionalmente em fevereiro de 1965, com a entrada da intérprete no espetáculo “Opinião” (1964) para substituir Nara Leão (1942 – 1989), Bethânia foi instantaneamente carimbada pelo mercado com o rótulo de cantora de protesto pela explosiva interpretação de “Carcará” (João do Vale e José Cândido, 1964). Avessa a cabresto, a movimentos e a rótulos, a cantora se recolheu e, a partir de 1967, começou a marcar presença em cena com espetáculos de moldura teatral.
“Pássaro proibido” foi o primeiro álbum de estúdio de Maria Bethânia em quatro anos. O primeiro desde “Drama – Anjo exterminado”, álbum lançado em 1972 com produção do mesmo Caetano Veloso que ajudou a dar forma a “Pássaro proibido” ao lado de Perinho Albuquerque (produtor nunca reconhecido na medida da importância que teve nos anos 1970).
Até então, Maria Bethânia era cantora prestigiada por shows realizados em teatros da abastada Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro (RJ) e cultuados por público formado em maioria por uma elite cultural. Em bom português, Bethânia tinha status, mas não chegava no povão.
Daí a importância do álbum “Pássaro proibido” na ampliação do canto dramático da intérprete em movimento iniciado, a rigor, no ano anterior com a gravação da canção “Coração ateu” (Sueli Costa, 1975) por Bethânia para a trilha sonora da novela “Gabriela” (TV Globo, 1975).
“Coração ateu” bateu forte com a amplificação nacional obtida através da tela da TV. Contudo, foi a canção “Olhos nos olhos” – em cuja letra Chico Buarque versava sobre a volta por cima de mulher abandonada pelo ser amado, enfoque progressista em época em que as compositoras ainda não tinham muita voz na música brasileira – que fez muita gente admirar a cantora e comprar o álbum “Pássaro proibido” em procura que garantiu a Bethânia o primeiro Disco de Ouro da carreira (Disco de Ouro era o prêmio dado pela indústria fonográfica na época a um artista que vendesse mais de 100 mil cópias de um álbum).
Quem comprou o LP e abriu a capa dupla se deparou com um triângulo com as cores do arco-íris em torno do qual estavam grafado os versos “Perguntar-te-ão como atravessar a vida. Responde: como uma corda esticada sobre um abismo. Belamente. Cuidadosamente. Impetuosamente.”, de poema de autoria desconhecida.
Estava tudo dito ali. Tem sido sobre o abismo que Maria Bethânia, bela e impetuosa, tem atravessado os 60 e poucos anos de carreira com extrema coerência. Sob esse prisma, “Pássaro proibido” se conserva retrato fiel da intérprete.
A fidelidade aos cânones que a artista estabeleceu para si mesma está exemplificada, por exemplo, em duas das quatro regravações do repertório composto por nove músicas. Trata-se do samba-exaltação “A Bahia te espera” (Herivelto Martins e Chianca de Garcia, 1950) e do nostálgico samba-canção “Mãe Maria” (Custódio Mesquita e David Nasser, 1943), duas músicas do repertório de Dalva de Oliveira (1917 – 1972), estrela da era do rádio que influenciou Bethânia pela passionalidade do canto agudo e luminoso.
Ambas ressurgem em “Pássaro proibido” com a suntuosidade orquestral que pautou os arranjos de cordas e metais criados por Perinho Albuquerque para o álbum e tocados por músicos como o baixista Moacyr Albuquerque (1945 – 2000), o pianista Perna Fróes (1944 – 2023), Gilberto Gil ao violão e o próprio Perinho na guitarra.
Detalhe: uma das últimas músicas gravadas por Dalva de Oliveira com o Trio de Ouro antes de a cantora partir em carreira solo, o samba “A Bahia te espera” tem apenas um minuto e 41 segundos na sucinta gravação de Bethânia.
Em contrapartida, a primeira faixa do álbum “Pássaro proibido” – “As ayabás” (1976), parceria de Caetano Veloso com Gilberto Gil – ultrapassa os seis minutos e meio. Bate o tambor na abertura do disco. Em “As ayabás”, Maria Bethânia saúda orixás de energia feminina (como Euá, Iansã e Oxum) ao som dos atabaques percutidos por Mônica Millet – neta da ialorixá Maria Escolástica da Conceição Nazaré (1894 – 1986), conhecida como Mãe Menininha – e Ubaldo.
Música reavivada por Maria Bethânia no ano passado no show dos 60 anos de carreira, “Balada do lado sem luz” foi feita por Gilberto Gil para a cantora gravar no álbum “Pássaro proibido” em registro que se já se insinua épico na introdução. Sem falar que a voz de Maria Bethânia estava tinindo naquele ano de 1976.
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Intérprete que poucas vezes gravou músicas em outra língua além do português, Bethânia canta em espanhol o sucesso argentino “Pecado” (Armando Pontier, Carlos Bahr e Enrique Francini), composto em 1946 como tango e lançado em 1950 como bolero, na forma com a qual a música foi popularizada. Detalhe: Caetano Veloso também regravaria “Pecado”, 18 anos depois, no álbum “Fina estampa” (1994).
No álbum “Pássaro proibido”, coube a Bethânia popularizar “Festa” (1968), maracatu de Gonzaguinha (1945 – 1991) que tinha sido lançado oito anos antes, sem repercussão, em álbum de Luiz Gonzaga (1912 – 1989).
Da safra de inéditas, a canção “Amor, amor” (1976) resiste ao tempo como uma das mais belas canções de Sueli Costa (1943 – 2023) – compositora recorrente na obra de Bethânia a partir de 1971 – no caso, em parceria com o letrista Cacaso (1944 – 1987).
Grande poeta da MPB, Cacaso escreveu versos do alto quilate de “Quando o amor tem mais perigo / Não é quando ele se arrisca / Nem é quando ele se ausenta / Nem quando eu me desespero / O o amor tem mais perigo / Quando ele é sincero / É quando ele é sincero”, cantados por Bethânia com arranjo lapidar que parece evocar o movimento das ondas de um mar em calmaria, em sintonia com a primeira estrofe da letra.
Vista em foto de Marta Viana na capa idealizada pela própria Bethânia, a artista é creditada como parceira do mano Caetano Veloso na música-título “Pássaro proibido”, alocada no fecho do álbum em gravação feita somente com a voz de Caetano Veloso, a pedido de Bethânia.
Contudo, Bethânia não escreveu a letra da canção, como se supõe. Como a intérprete já explicou em entrevistas, Caetano deu (merecidamente) a parceria a Bethânia porque ele escreveu a letra com base no relato feito pela irmã do sonho com o pássaro que batizou a música e o disco.
Quem canta na faixa é Caetano, mas “Pássaro proibido” parece simbolizar a própria Maria Bethânia, intérprete com poder de voar sobre rótulos, cerceamentos e opiniões rumo a um porto onde se sinta segura e livre.
“Pássaro proibido”, o álbum, completa 50 anos como atestado da coerência dessa intérprete altiva e imponente. Um disco que pavimentou o caminho para que Maria Bethânia ficasse conhecida além do circuito de shows e entrasse definitivamente, a partir da segunda metade dos anos 1970, no panteão das grandes e imortais cantoras da MPB.
Capa do álbum ‘Pássaro proibido’ (1976), de Maria Bethânia
Marta Viana

Fonte: G1 Entretenimento