Um jovem pode não conhecer ‘Bichos Escrotos’ dos Titãs? Cover de Anitta gerou debate na internet

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Assista ao trailer de ‘Corrida dos bichos’
Sentadinhos na cadeira do réu do tribunal da internet nesta semana estão as baratas e os ratos de “Bichos Escrotos”, da banda de rock brasileira Titãs. Não os bichanos da letra em si, mas a importância que a música, lançada em junho de 1986 como uma crítica à hipocrisia da sociedade, deveria ter para os jovens da tão geração Z.
Depois que a versão lançada por Anitta para a trilha de “Corrida dos Bichos”, filme do Prime Video, se transformou em um grande meme (veja vídeo abaixo), centenas de perfis passaram a apontar, de forma equivocada, que a música seria um lançamento original da cantora carioca. A maioria dessas publicações foi feita por jovens.
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Os próprios Titãs não pareceram estar preocupados com o fato de que parte da geração que ouviu Anitta não conhecia a música original. Ao contrário: eles comemoram que ela voltou a circular.
Mas, encabeçando um verdadeiro motim contra os “farmadores de aura” (e em nome da educação e da cultura brasileira!), não faltou gente para dizer coisas como “vão estudar!”, “como assim vocês não conhecem a história do próprio país?” ou ainda recorrendo à cansada expressão: “Esta geração está perdida”. Se está eu não sei, mas sei que tem coisa demais para conhecer em tão pouco tempo.
Uma interação no X sintetiza a treta:
Internauta conta que não sabia que “Bichos Escrotos” era uma música dos Titãs.
Redes sociais.
Outro internauta afirma que sabia que “Bichos Escrotos” era dos Titãs, mas não conhecia a versão apresentada por Anitta.
Redes sociais.
Mas o que parecia estar mesmo tirando a paz de tanta gente era o desconhecimento dos jovens sobre uma música que fariam parte de uma lista de canções que são “bá-si-cas” para se conhecer. A maioria dessas publicações foi feita por pessoas mais velhas.
De quem é a curadoria?
Vamos partir desse ponto. Todos nós concordamos que engatar um bom livro, se emocionar com uma música, rir com uma peça, chorar com um filme… tudo isso é importantíssimo para a formação de um indivíduo, sua construção subjetiva, bagagem, repertório. O básico.
Ótimo. E o que entra no “kit de sobrevivência” do mundo cultural?
Quais são os álbuns básicos para se conhecer a música brasileira? Quais artistas foram mais importantes do rock dos anos 80 e 90? E da axé music? Da história do brega? E do sertanejo? Todos os estilos merecem esse tipo de discussão.
Ratos e baratas dançarinos viram protagonistas de um dos memes que ajudaram a colocar “Bichos Escrotos”, dos Titãs, de volta no centro das redes.
Reprodução/X/Acervo Meus documentos
E, se a gente quiser emaranhar esse fio, caberia questionar: se é absurdo não conhecer uma faixa lançada pelos Titãs há 40 anos, nunca ter ouvido “O Show Tem que Continuar”, lançada na mesma época pelo Fundo de Quintal também é absurdo, certo? E não fazer ideia de quem sejam Amado Batista e Agnaldo Timóteo?
A regra é: tem que saber quem são todos os “grandes nomes nacionais” e seus repertórios. Mas quem são esses nomes? É preciso saber TODO o repertório? Ok, tudo está disponível no streaming, o acesso nunca foi tão fácil. Mas é natural que um jovem conheça “Sonífera Ilha”, um clássico de formaturas e casamentos, e não conheça canções da fase mais pesada e provocativa de uma banda.
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A inegável importância dos Titãs
Dito tudo isso, é inegável a importância dos Titãs para o rock, para a música brasileira, para os anos 80, para hoje, para sempre. “Bichos Escrotos” foi lançada no álbum “Cabeça Dinossauro”, de 1986. Só esse disco, sozinho, vendeu mais de 700 mil cópias. A discografia já passa da casa dos seis milhões.
Ainda mais importante que esses números, há o choque. O estranhamento que versos como “Ratos! Entrem nos sapatos do cidadão civilizado” causava lá atrás é semelhante ao desta nova geração. Melhor conhecer esses versos afiados agora do que não conhecer.
Primeira formação do Titãs: no alto (a partir da esq.): Sergio Britto, Branco Mello, Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Tony Bellotto; abaixo: André Jung, Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e Nando Reis
Reprodução/Facebook/Paulo Miklos
Oncinha, zebrinha, coelhinho..
Uma pista de como ela continua tão atual: “Bichos Escrotos” aparece como desfecho de “A Pauta é uma Arma de Combate” (Arquipélago Editorial), livro publicado pela jornalista Fabiana Moraes em 2022, 36 anos após o lançamento da faixa.
Mais especificamente, este trecho: “Oncinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo, vão se foder”.
Sérgio Britto canta no show dos Titãs no Rock in Rio 2017
Fábio Tito/G1
Tanto na versão original da música quanto no uso que a jornalista pernambucana faz dela no livro, a crítica é a mesma. É dirigida a toda uma geração polida, “limpinha”, careta, que joga no lixo tudo aquilo que considera feio demais.
Professora de Comunicação que dá aula para alunos em início da graduação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Fabiana define toda essa discussão como um “falso problema”.
“Conheci Bob Dylan e Johnny Cash através do U2. Um monte de gente descobriu David Bowie através de uma regravação do Nirvana. Clara Nunes acabou de ter ‘Feira de Mangaio’ (1979) regravada por Marina Sena. As coisas vão e voltam. É ótimo, assim atrai novos ouvidos”.
Após toda essa polêmica, a nova versão de Anitta já vai acumulando mais de 70 mil reproduções só no Spotify. O tuíte do fã que descobriu, nesta semana, que a faixa era do grupo de rock já se aproxima das 600 mil visualizações (o do print lá em cima).
Seja pelo meme das baratinhas dançarinas, pelo filme ou pela versão de Anitta, a única certeza que fica é que muita gente conheceu ainda mais da obra dos Titãs nos últimos dias. Outras tantas ainda vão, se eu tiver sorte, com este texto.
Cartela resenha crítica g1
Arte/g1

Fonte: G1 Entretenimento