‘Você está vivo hoje? Tem bomba aí?’ Brasileira nascida na Rússia relata tensão de familiares que vivem na Ucrânia

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Manoela Matioli sempre dividiu sua vida entre Brasil, Rússia e Ucrânia. Morando no Brasil, mas com amigos e familiares nos dois países europeus, ela sofre com a falta de notícias sobre a situação deles. Manoela Matioli
Arquivo pessoal
Filha de mãe russa e pai brasileiro, Manoela Matioli, 37 anos, nasceu em Moscou, capital da Rússia, onde viveu até os 14 anos. A ativista de direitos humanos tem amigos e familiares na Ucrânia e passou mais de 24 horas sem notícias do pai de sua filha, de 5 anos.
A história de Manoela mostra o quão forte é a ligação entre os dois países, agora em guerra.
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“Quem está em abrigos está sem sinal, a comunicação está muito difícil”, conta a ativista, que ficou mais de um dia inteiro sem notícias do pai de sua filha, um militar ucraniano aposentado, após a invasão russa na Ucrânia iniciada ontem.
Manoela deixou a Rússia em 1998, quando Putin disputava as eleições, e se mudou com o pai para o Brasil. Sua mãe, no entanto, permaneceu na Rússia até 2013 — ano em que também veio viver no país latino-americano.
Com a guerra que eclodiu na Ucrânia, ela sofre com os laços que tem com os dois países europeus. Amigos e familiares se abrigaram, às pressas, em bunkers — abrigos construídos durante o período da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
Após um dia inteiro sem notícias, hoje ela conseguiu contato com o pai biológico de sua filha, que ela prefere não identificar por questões de segurança. Ele e outros familiares conseguiram sair do bunker em que ficaram abrigados e chegaram a uma região considerada mais segura, próxima à divisa com a Polônia.
“Eu estou mais tranquila, pelo menos por hoje. É um dia de cada vez. É assim: você está vivo hoje? Tem bomba aí? O que não quer dizer que amanhã não vai ter”, desabafa.
A ativista estava, inclusive, com viagem marcada para Kiev, capital ucraniana, em março. “Desde a pandemia, agora seria a primeira vez que eu retornaria para lá”, conta.
Manoela Matioli
Arquivo pessoal
‘Só volto para a Rússia depois que Putin morrer’
Manoela chegou a entrar para uma lista de traidores da pátria russa em 2014. Naquele ano, ela resolveu documentar, de forma independente, a Guerra da Crimeia. A ativista morou em uma base militar no leste da Ucrânia.
Ficar do lado ucraniano do conflito também resultou no rompimento de laços com familiares russos.
“Desde 2014 eu só venho perdendo familiares e amigos lá, porque as pessoas estão cegas. Eu não sei o que elas têm na mente, se é uma lavagem cerebral”, desabafa emocionada. “Eu assisto à TV russa e é inacreditável como as notícias circulam lá.”
Manoela Matioli
Arquivo pessoal
Nos últimos oito anos, ela dividiu sua vida entre o Brasil e a Ucrânia. “Passo três meses lá, três meses aqui no Brasil”, conta. Manoela diz sentir falta da cultura eslava e sofre com as relações russas que foram cortadas, mas não utiliza mais nem mesmo a sua cidadania russa. “Só vou voltar para a Rússia depois que Putin morrer”, afirma. Enquanto isso, ela busca suprir essa falta em suas viagens para a Ucrânia.
Desde o século IX, as terras do que hoje são a Rússia e a Ucrânia estão ligadas. A influência russa é muito presente no território ucraniano, especialmente na região leste, onde está a fronteira entre os dois países. Ali, mais de 90% das pessoas têm o russo como língua nativa.
Ainda durante o conflito na Crimeia, Manoela chegou a visitar um abrigo para crianças e deu início ao processo de adoção de uma menina ucraniana de 5 anos, que foi resgatada em meio a um campo de batalha. Mas, em uma das vindas da ativista para o Brasil, o abrigo em que a criança morava foi atingido por uma bomba. Manoela retornou para a Ucrânia, procurou pela menina, mas nunca mais a encontrou ou teve notícias do que aconteceu.
Em 2016, Manoela teve sua filha de pai ucraniano. Ela já era mãe de um menino de 15 anos. A ativista chegou a iniciar a faculdade de Letras, mas não concluiu o curso. Hoje, ela estuda medicina veterinária em Florianópolis e está escrevendo um livro sobre sua história.
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Fonte: G1 Mundo